Entrevista

Ben Affleck entrevista

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NOVA YORK, 27 - Logo após ganhar o Oscar de melhor filme com "Argo", em 2013, Ben Affleck, 44, escreveu, dirigiu, produziu e protagonizou "A lei da noite". O filme, que acaba de chegar aos cinemas, é uma adaptação do livro de Dennis Lehane publicado em 2012, a segunda colaboração entre os dois após o elogiado "Medo da verdade", de 2007. Agora, a ação é na Flórida, nos últimos anos da era da Proibição, com a Lei Seca em vigor na década de 1930. Os panos de fundo são o crime organizado, a expansão da máfia para o sul do país, o primeiro da imigração latino-americana e a popularização das igrejas evangélicas. No centro, está Joe Coughlin (Affleck), um dos personagens mais emblemáticos de Lehane, cuja saga familiar é contada na trilogia encerrada com "World gone by" (2015).

Ex-militar de uma família de origem irlandesa, Joe contraria o pai policial (Brendan Gleeson) e vira um soldado importante no xadrez da contravenção americana. Seus encontros nem sempre amistosos com os personagens de Elle Fanning, Chris Messina, Sienna Miller, Zoe Saldana e Chris Cooper o levam a tentar reorganizar a vida local, mas ele acaba perseguido, de forma trágica, por demônios do passado.

Ao GLOBO, Affleck falou de paralelos entre hoje e a trama passada na primeira metade do século XX. E lembrou mazelas e alegrias de acumular tantas funções num filme. Razão que dá para ter desistido de dirigir o novo "Batman", escrito e estrelado por ele e previsto para 2018.

Por que escolheu dirigir e atuar em "A lei da noite" logo após "Argo"?

Eu queria viver um protagonista cuja ambiguidade moral fosse explicitada no roteiro. Queria desafiar o público, e a mim mesmo, a simpatizar, a se identificar com um sujeito como o Joe. Queria explorar limites do comportamento, da moral, de um homem que mata muita gente mas que também vive um grande amor, com o personagem da Zoe (), que constrói uma família binacional e multiétnica, naquele período histórico. E queria me "libertar" de "Argo", fazendo um filme clássico de gângster.

Se "libertar" da expectativa de ter de fazer algo similar a "Argo"?

Exato. Jamais imaginei que receberia outro Oscar (). Saí da festa da premiação naquela noite já consciente de que aquilo, provavelmente, não se repetiria. E me permiti usar a, vá lá, credibilidade ali conquistada para fazer algo completamente diferente. "A lei da noite" é, no fim, uma homenagem aos filmes de gângster que sempre amei e me formaram como ator e diretor.

E como uma versão de um filme clássico de gângster vai atrair novas gerações para o cinema?

É uma boa pergunta, e, por outras razões, também esteve presente em "Argo". Será que veriam aquele filme mais político, apesar de toda a ação e das referências históricas? Espero que o poder de atração, agora, esteja na história do Dennis, no roteiro, nas atuações. E eu me recuso a aceitar que a geração do milênio só goste de filme que tenha smartphone na trama.

Atuar e dirigir ao mesmo tempo não é extremamente complicado? Ora você não tem de privilegiar Ben, o ator, ora Affleck, o diretor?

Acho que hoje, muito por conta de uma maior experiência por trás das câmeras, me tornei um ator mais econômico. E não importa de fato se estou dirigindo ou não, mas, quando estou atuando, minha preocupação é unicamente a relação entre a câmera e o personagem. Consigo esquecer detalhes de produção, se o cenário ficou do jeito que eu queria, se há um ator bêbado no set. Ali, naquele momento, sou eu e só eu. Dirigir são outros quinhentos.

O que você pode adiantar do novo "Batman"?

Que estamos desenvolvendo o roteiro. Que não irei fazer um filme questionando se ele é ou não bom o suficiente para mim. Ou bem a gente faz um roteiro de fato sensacional, e estou imerso nesse processo agora, ou iremos esperar por muito mais tempo do que imaginamos para o "Batman" sair do papel uma vez mais. O critério, no caso do "Batman", por uma série de razões, a começar pelo tamanho do filme, tem de ser ainda mais rígido do que o normal: ou é sensacional, de fato original, ou não me interessa .

"A lei da noite" é, também, um tributo à Hollywood do entre-guerras, não?

Sim, é uma maneira de agradecer àqueles cineastas. A cena mais é a em que levo Joe, um veterano na Primeira Guerra Mundial, para o cinema, e ele vê na tela grande a eclosão de um novo conflito de proporções gigantescas na Europa. É irônico, triste, e remete a um tempo em que as pessoas iam aos cinemas para serem informadas, antes da televisão, algo impensável para nossa era da notícia em tempo real. Os vão se surpreender...